Reproduzimos aqui o testemunho biográfico sobre Dom Geraldo, escrito pelo seu irmão Paulo Verdier:  

 

O padre Geraldo e eu, pertencemos à uma familia de seis filhos : quatro homens e duas mulheres, sendo que a caçula, Bernadete, era portadora de síndrome de down, e faleceu aos seis anos de idade. Ela teve um papel muito importante na coesão de nossa familia e na aprendizagem da atenção ao outro, confortados pelo exemplo de nossos pais. (continua) 

Como muitos, no final da segunda guerra mundial, nossos pais, que não eram pobres, tiveram que trabalhar, sem poupar suas forças, para enfrentar as necessidades de cada um de nós e em particular de nossa irmãzinha, pois o plano de saúde era ainda muito precário para os operários como nosso pai que era ferreiro. Mas, antes mesmo da educação para a qual eles se deram sem medida, a maior riqueza que eles nos legaram é o amor de Deus e a fé cristã. 

É no seio desta familia, que aparece no dia 28 de março de 1937, sete anos após nosso irmão mais velho, André, e o pequeno futuro Dom Geraldo. Eu nasci cinco anos mais tarde e não guardo nenhuma lembrança precisa dele em nossa casa. 

Nossos pais colocaram André e Geraldo na escola apostólica do priorado de Ambialet dos padres da Terceira Ordem Regular de São Francisco que, após a expulsão das congregações religiosas pelo governo francês da época, em 1902, se estabeleceram na diocese de Cuiaba, depois em Cáceres, no Estado de Mato Grosso, com o bispo Dom Galibert, e enfim na prelazia de Guajará-Mirim, no Territorio do Guaporé (Rondonia), onde o primeiro prelado foi Dom Rey. Nossa cidade natal, Alban, se localiza apenas a quinze quilômetros de Fauch, cidade natal de Dom Rey. 

Mais tarde eu também fui acolhido neste colégio. Dom Geraldo muito jovem ainda foi impregnado deste ideal franciscano e missionário. A narrativa da vida heróica destes Padres missionários para anunciar o evangelho e o entusiasmo transmitido por aqueles que estavam de passagem pelo colégio apostólico de Ambialet, fazem germinar nos corações, como o de Dom Geraldo, o amor de Deus e o desejo de serví-lo um dia nestas longínquas regiões do Mato Grosso e de Guajará-Mirim. 

Foi assim que Dom Geraldo entrou para o noviciado dos Franciscanos da Terceira Ordem à Notre Dame de la Drêche, lá onde, em 1930-1931, Dom Rey tinha passado seus últimos anos antes de ser ordenado padre e de partir para Cáceres e Guajará-Mirim. 

Depois dos acontecimentos que sacudiram a congregação franciscana, Dom Geraldo continuou seus estudos com os Franciscanos da Primeira Ordem da cidade de Béziers (no sul da França) e depois vai a Paris para terminar seus estudos e obter seu diploma de Teologia no Instituto Católico de Paris. As circunstâncias internas da Terceira Ordem o levam, com um pequeno grupo de religiosos, dentre eles o padre Sylvain Dourel fundador da Lettre d’Amazonie e responsável na França, do apoio à missão de Guajará, a optar pela prelazia de Guajará-Mirim onde Dom Rey era o prelado. Isso aconteceu em 1960. 

Foram anos de relativa pobreza e de incerteza quanto ao amanhã. Mas nenhum obstáculo pode deter o entusiasmo e a determinação que habitavam o pequeno grupo, nem tirar a alegria fraterna, verdadeiramente franciscana, que unia seus membros. Foi durante estes anos abençoados que a confiança que já existia entre Dom Geraldo e o padre Sylvain, se tornou uma amizade a serviço da missão, que não se desmentiria jamais. Esta amizade iria ter um papel essencial na vida de Dom Geraldo e, por via de circunstância, na vida da missão. 

Deste modo, que eu me lembre, Dom Geraldo sempre deu prova desta capacidade de confiança, de abertura aos outros e de compaixão por aqueles que estão no sofrimento. Em familia e até o momento, sem sucitar o menor ciúme, ele era o ponto de referência tanto para nossos pais como para cada um dos irmãos e irmãs. Onde quer que ele estivesse sua presença não deixava ninguém indiferente. Dele emanava uma força interior radiante e tranquilizadora. Lider nato, frequentemente animador, não lhe faltava o humor. A gente se sentia feliz de estar em sua companhia. Isto certamente não mudou. 

Um traço essencial nele : a confiança na Providência e a procura da vontade de Deus, da “ação justa” a realizar, como prioridade absoluta. Alguns fatos para ilustrar esta disposição que o habita desde sua juventude : 

Durante seu noviciado em Notre Dame de la Drêche, começou a vomitar sangue, revelando uma fragilidade nos brônquios. Um pouco mais tarde, seu médico reagiu dizendo-lhe : “Não espere mais ir ao Brasil; e quanto a Amazônia nem pense nisso”. Alguns anos mais tarde, em 1964, ele não hesita em responder positivamente ao apelo que lhe foi feito de assumir a direção do colégio apostólico dos Padres Franciscanos da Terceira Ordem de Mogi-Mirim, no Estado de São Paulo. Permanece ai, uns dez anos. Os seminaristas daquele tempo se lembram dos finais de semana em que ele os levava a reconstruir as casas pobres na cidade. 

Nós conhecemos o que vem em seguida : Estas viagens no rio Guaporé e seus afluentes assumidas a pedido de Dom Roberto, apesar do desconforto e riscos para seus pulmões frágeis com o risco da malária. 

Nomeado bispo por Roma em 1980, ele sucede a Dom Roberto que lhe deixa uma semente já bem crescida de comunidades de base e passa trinta e três anos à frente da imensa diocese que ele percorreu infatigavelmente numerosas vezes, sempre que necessário... e nunca teve malária! Um toque da Providência, lembrando que seu médico lhe havia dito : “Nem pense de ir à Amazônia !” 

Enfim o último sinal desta confiança “naquele em que ele colocou toda sua confiança” é a grande serenidade – eu estou ainda na admiração – com a qual ele aguardou e preparou sua sucessão. Com a escolha de Dom Benedito, a realidade ultrapassou suas esperanças. É preciso dizer que o Espirito Santo dificilmente poderia resistir ao Papa Bento XVI que, no final do último encontro que Dom Geraldo teve com ele em Roma, o convidou a rezar juntos um Pai Nosso “para que ele tivesse um bom bispo coadjutor!”. 

Concluindo este testemunho fraterno, forçosamente incompleto, quero relembrar o quanto Dom Geraldo, meu irmão bispo, sem jamais me julgar, ou fazer pressão sobre mim, me ajudou a discernir e a descobrir a verdade em mim, na minha caminhada pessoal e como nos sustentou, a mim e à Denise quando nos engajamos mutuamente pelo sacramento do matrimônio. Eu sei como é importante estar em paz com sua consciência esclarecida pela Luz de Cristo. 

Neste dia deviamos estar presentes com Denise. Os meus problemas de saude não o permitiram. Mas pelo coração estamos bem ai. 

Boa festa querido Geraldo e um grande e carinhoso abraço a todos os presentes, em particular, Dom Benedito. 

Domingo da Pascoa
Paris 31/ 04/ 2013 Paulo e Denise Verdier

CPT-RO